sexta-feira

África: Integração territorial !



SEMPRE EXISTE UMA INTEGRAÇÃO TERRITORIAL AFRICANA


*Henrique Cunha Júnior


A fantasia ou pesadelo da tribo dos homens nus leva pensarmos e África como um conjunto de povos dispersos na mata e incomunicáveis uns com os outros.

Esta imagem é reforçada pela insistência numa diversidade lingüistica africana e nas hipóteses improváveis da história brasileira de que os escravisadores colocavam africanos de origens diferentes na mesma fazenda e nas moradias para evitar a comunicação entre eles e, portanto, evitar a possibilidade de rebeliões.

A começar pela História do Brasil, onde as rebeliões sempre existiram, o que é possível imaginar que a língua não é empecilho. Ainda mais, seria impossível organizar um sistema de produção onde os trabalhadores não conseguissem se comunicar.

Indo à realidade africana lingüistica, temos que notar que todas as línguas provem de apenas quatro matrizes lingüisticas. Que no continente africano, hoje como no passado, diversas línguas são compreendidas por povos diversos.

Ainda mais que, existem línguas como o Árabe e o Suarili que são faladas em quase todo o continente. Não existem para o africano barreiras lingüísticas, de comunicação entre os diversos povos e nações. As dificuldades ou facilidades lingüísticas na África não são diferentes das Européias ou Asiáticas.
Nessa discussão de línguas, de facilidades e dificuldades aparece freqüentemente a intervenção de um outro possível fator explicativo das supostas dificuldades lingüisticas da integração na África e de facilidade na Europa que seria a escrita.

A observação trás a cena dois pressupostos falaciosos, o primeiro é que os africanos antes de 1400 não conheciam a escrita e outro de que o europeu sempre a conheceu.

Começamos pelo europeu, cabe perguntarmos desde quando e como adquiriram a escrita, também desde quando esta se popularizou.Poucas pessoas na nossa cultura têm presente a idéia que o europeu adquiriu a escrita de outros povos e que somente com a expansão do Império Romano esta escrita chega ao conjunto do território europeu.

Poucos são os textos que informam do estado de atraso e ignorância que viveu a Europa até a Idade Média, por volta de 1200 e, que a saída para o desenvolvimento vem através das cruzadas indo para territórios da África e da Ásia.

Como exemplo temos a medicina européia, resultado da tradução de manuais Árabes. Mesmo com a Matemática, a Física, a Química e a própria escrita européias, são resultados do contato europeu com estes povos.

Sobre a África costuma-se dizer que é um continente oral, sem entendermos o que representa esta oralidade como método de transmissão do conhecimento na África. A oralidade não é a ausência da escrita. A escrita faz parte das culturas africanas desde as civilizações egípcias.

Pelo menos são quatro os Alfabetos desenvolvidos no conjunto das civilizações africanas, em áreas diversas do continente. Ademais, anterior a 1500 a África processou uma imensa utilização do Árabe como língua comercial e cultural, dado pela expansão do Islamismo em 2/3 do continente a partir dos anos 600, sendo comum a existência de documentos em Árabe para a história africana.

As escritas em Árabe chegam ao Brasil, onde os escravizados participantes da revolta dos males, em 1831, escrevem panfletos e se comunicam em Árabe.É necessário mais cuidado nas comparações entre a história africana e a européia. Faz-se necessário maior informação sobre uma e outra para escaparmos das idealizações e reduções impostas pelos processos de dominação racistas.

Nessa discussão de línguas, de facilidades e dificuldades aparece freqüentemente a intervenção de um outro possível fator explicativo das supostas dificuldades lingüisticas da integração na África e de facilidade na Europa que seria a escrita.
Um exame da profusão de línguas e povos na Europa, tomando o período anterior a constituição dos grandes estados nacionais, verificamos que não é muito diferente da situação africana. Mesma na atualidade temos que dizer por exemplo que a língua francesa não é a única falada em todo território francês, território este que em quilômetros quadrado não é maior que os estados africanos.

O mesmo se dá com a Espanha e a língua espanhola, o Britânicos e o Inglês, ou alemão e Alemanha. As idéias de uniformidade e coesão apresentadas no Brasil sobre os europeus não têm correspondido com a realidade. São idéias trabalhadas ideologicamente como sinônimos de organização e a organização como signo do processo.

Na cultura brasileira a África é sempre tratada como distante. A idéia de distante reflete outro estereotipo que é a idéia da falta de integração da África aos espaços econômicos mundiais. Significa que ficou isolada e atrasada até o dia que os europeus correram ao seu socorro. Na versão brasileira a África é ausente das integrações internas e externas ao continente.

Este isolamento é tido como quebrado com a chegada do Português no Reino do Congo em 1484. Nos é dado a idéia que o português não conhecia a África anterior a esta data e que os africanos não conheciam a Europa.

A integração econômica milenar da África, interna e externa pode ser trabalhada pelas rotas comerciais das caravanas comerciais que cruzam todo continente e se estendem pela Europa e Ásia chegando a Índia e China. Um bom material de argumentação, são as gravuras de africanos nas cortes chinesas presenteando com produtos africanos e animais como a girafa. Estas gravuras datam de 1383.

Uma discussão mais profunda da integração africana à economia mundial pode ser tida pelas viagens de navegadores e africanos à América em períodos anteriores a Colombo. Viagens realizadas periodicamente e em períodos históricos amplos como são as trocas entre as civilizações da América Central e os Egípcios, ou entre Malianos e Caribenhos.

A chegada dos europeus através dos portugueses na África não é acompanhada de um raciocínio sobre a presença negra na Europa e da presença européia na África anterior à esta época. Pouco se tem conhecimento da existência das Cruzadas, negros combatendo ao lado de Cruzadas de brancos. São raros os que examinam as origens das imagens de santos negros nas igrejas católicas européias ou de imagens negras nas catedrais alemãs da Idade Média.

Estas imagens atestam em profundo contato entre africanos e europeus no século 13. Ademais, as figuras negras aparecem com a mesma dignidade e importância das figuras brancas. A expansão incrível do Império Romano não é intermediada no imaginário brasileiro como a possibilidade de trocas existentes entre africanos e europeus anteriores a 1484, ou seja, no início da expansão comercial portuguesa.
Um exame da profusão de línguas e povos na Europa, tomando o período anterior a constituição dos grandes estados nacionais, verificamos que não é muito diferente da situação africana. Mesma na atualidade temos que dizer por exemplo que a língua francesa não é a única falada em todo território francês, território este que em quilômetros quadrado não é maior que os estados africanos.

O mesmo se dá com a Espanha e a língua espanhola, o Britânicos e o Inglês, ou alemão e Alemanha. As idéias de uniformidade e coesão apresentadas no Brasil sobre os europeus não têm correspondido com a realidade. São idéias trabalhadas ideologicamente como sinônimos de organização e a organização como signo do processo.

* Henrique Cunha Júnior, professor de História na Universidade Federal do Ceará

Da Redação: Em tempos de democracia, estamos fazendo a nossa parte, o Fuxico deseja à todos os navegantes, uma excelente leitura, tire suas conclusões! Este sábado não é dia de Grenal, mas é véspera de importantes decisões! Axé !
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